A minha cura.
Este post é especial! É um post diferente de todos os outros até agora, é muito pessoal e é muito meu. Vai falar-vos um pouco de uma pequena parte da minha vida que tem como objetivo “incentivar” e “destapar” quem eu sou e quem no fundo, todos nós somos.
Todos nós temos uma vida, uma família, uma casa ... todos nós sentimos. Às vezes amor, às vezes ódio, por vezes alegria, por outras vezes tristeza, sentimos também raiva, dor e revolta. Nós sentimos muito e estamos sempre a sentir, na maior parte das vezes é-nos até mais fácil sentir sentimentos maus, do que sentimentos bons. No fundo, todos nós somos seres humanos ou pelo menos, tentamos se-lo. Está, é a parte de uma história de um ser humano que tentava se-lo todos os dias, mas que invés de o ser, vivia dentro de uma bolha onde a única coisa que conseguia ser, era um resto de ser humano que tinha sobrado de alguém que amava muito, que tinha tudo e que derrepente se sentiu sem nada. De alguém que sem querer, era egoísta consigo mesma.
Está mulher linda era a minha mãe. O ser mais maravilhoso á fase do meu mundo, ela para além de mãe, era irmã, companheira, confidente, cúmplice, enfim, ela era tudo do melhor que a vida tinha para mim. Nós não dávamos passo uma sem a outra, onde uma estava, a outra também estava e quando se por algum motivo, não pudessem estar no mesmo local, havia sempre contacto nem que fosse por mensagens. Nós tínhamos uma relação inigualável e extremamente especial, ela era tão especial e tão única. Até que um dia, a vida deu uma grande volta e a saúde da minha mãe foi afectada por um cancro maligno, que quando descoberto, já estava com bastantes metástases e a situação já era bastante crítica. Ainda assim, foram 4 meses de esperança, de luta, de aprendizagem, de conquistas e derrotas também. Foram 4 meses vividos de picos constantes. Foram 4 meses em que o meu coração não queria ouvir o que o meu cérebro, e todas as pessoas á minha volta me diziam, incluindo os médicos e até o que os meus próprios olhos viam. Eu neguei o óbvio, até que ao fim de 4 meses, a minha mãe acabou por falecer.
No momento em que me ligaram do hospital a dar a “noticia”, não sei dizer se senti mais alívio ou mais dor ... Na realidade eu sabia que ia acabar por perder a minha mãe, eu sabia de toda a situação mas ao mesmo tempo, por protecção negava-a. A minha alma já estava tão cansada de ver tanto sofrimento, tanta dor numa pessoa só, a minha mãe já não era a minha mãe e essa era a realidade nua e crua. É tal e qual quando ouvirmos aquela frase bonita de Facebook “Quem ama, deixa ir” e essa frase naquele momento encaixou tão bem em mim, que eu achava mesmo que tinha deixado ir, eu achava que tinha feito o meu luto naquele momento.
Só que entretanto, passou 1 ano. Um ano em que eu não sabia que tinha caído dentro de um buraco de raiva, dor, angustia, revolta, acima de tudo revolta ... 1 ano em que eu vivi na ideia de que estava tudo bem mesmo quando as pessoas á minha volta me diziam que não estava. Naquela altura, eu sentia uma necessidade enorme de repetir vezes e vezes sem conta o que se passou e da forma como se passou, sem esconder nenhum detalhe e até fazia questão de os frisar. Dizem que falar ajuda, e talvez ajude mas não quando o fazemos em qualquer altura, com qualquer pessoa, e da forma como o fazia. Eu não sabia falar do assunto sem mostrar raiva e sem referir o quanto chateada estava com a vida por me ter tirado aquilo que eu mais amava muito menos da forma como o fez, mas estava tudo bem. Sentia raiva das pessoas, não sentia vontade de sair á rua nem de me arranjar (só pelo blogue já deu para ver o quanto eu gosto de cuidar de mim) mas naquela altura, simplesmente não fazia sentido, aliás, tudo tinha deixado de fazer sentido, mas lá está, estava tudo bem. E sempre que as pessoas que me conheciam e gostavam de mim me questionavam e me tentavam chamar á razão, eu negava e ainda ficava indignada. No meu ver, se eu não queria sair de casa, maquilhar-me, vestir-me bem, falar com as pessoas, ter uma vida normal ... simplesmente não tinha que o fazer. Eu é que estava certa! Só que não ...
Entretanto, vivi nesta bolha durante 1 ano! Podem imaginar?!
Até que, sem saber ainda bem como, deu o “click”, comecei a sentir-me sufocada de estar em casa e resolvi ir á procura de trabalho, e fui, e encontrei.
Tive a bênção de ir parar a uma loja maravilhosa com pessoas ainda mais maravilhosas, onde para não variar, contei toda a minha história sem esconder detalhes vezes e vezes sem conta a cada um dos dos meus colegas ... Como era óbvio, só na minha cabeça é que estava tudo bem, só na minha cabeça é que eu falava daquilo tudo com naturalidade, mas eles apenas ouviam. Até que um dos meus colegas após ouvir a minha história N vezes, ganhou coragem e me disse “Patricia, tu não aceitaste a morte da tua mãe”, naquele momento aquilo caiu-me do género “quê?! Como assim, não aceitei a morte da minha mãe?!” achei estranho, aquilo mexeu comigo ... pela primeira vez tinha ouvido aquela frase da boca de alguém fora da minha zona de conforto, de alguém que não conhecia a minha mãe, de alguém que não viveu aquilo comigo. Resolvi então falar com uma outra colega com quem eu tinha uma grande ligação ao qual ela me respondeu “Finalmente, alguém te disse aquilo que eu não consegui dizer. Não por não ter coragem mas por saber que não o ias ouvir” e por incrível que pareça aquele foi o momento! O momento onde eu caí em mim e nesse preciso momento, desfiz-me em lágrimas. Percebi o quanto errada estava a minha cabeça, o quanto confuso estava tudo á minha volta, o quanto injusta fui ao não ouvir quem sempre me quis bem. Foi como se naquele momento a parede que eu tinha no meu coração fosse abaixo, permitindo-me ver aquilo que eu não via. E nesse preciso momento desabafei com ela, contei-lhe tudo aquilo que na altura eu achava que não me incomodava, mas que na realidade incomodava, e muito. Ao qual ela apenas me disse “Perdoa a vida. Perdoa-te a ti. Perdoar é tão bom, não para quem nos fez mal, mas para nós mesmos”.
E foi aí que eu perdoei, não digo que tenha sido fácil, porque estaria a mentir. Mas pelo menos permiti-me faze-lo, permiti-me a mim mesma perdoar e aceitar a vida tal e qual como ela é, com tudo e com nada, aprendi que a única certeza que temos na nossa vida quando nascemos é que existe uma linha limitada até á morte e que essa mesma linha, pode ser comprida ou curta e nem sempre somos nós a decidir isso, aliás, nunca decidimos. Que nós nascemos acima de tudo para aprender e para lutar. Ninguem nasce guerreiro, nós aprende-mos a sê-lo e passamos a vida inteira a aprender, ás vezes com perdas, outras vezes com ganho. Mas que nada na vida acontece por acaso e que o que tem de ser, é e é no seu próprio tempo, no tempo exacto. É preciso agradecer mais, e lamentar menos e essa é uma das regras mais difíceis de entender e cumprir.
Claro que com isto, eu não digo que já não doa, vai doer sempre e para sempre, mas é uma dor com a qual eu tive que aprender a viver, e a melhor forma de a viver, foi sentir a minha mãe cada vez que fecho os olhos e coloco a minha mão no coração.
Este foi um post muito ponderado e dos que mais tempo levou a escrever, resolvi ir realmente com ele para a frente e "abrir" o resumo da minha história ao mundo porque sei a quantidade de pessoas que também estão ou estiveram na mesma situação que eu, nem sempre por motivos cancerígenos mas por outras doenças ou problemas da vida e quero tentar mostrar que mesmo que pareça que estamos no fim da linha, há sempre uma razão por mais invisível que seja e um motivo para continuarmos. A vida coloca-nos constantemente á prova, a há provas que se tornam novos modos de vida. Nunca desistam de vocês mesmos, acreditem sempre que por pior que seja o momento pelo qual estão a passar, existe sempre esperança, e afinal de contas, a esperança é a última a morrer não é?! Um beijinho, Pf *








Super poderoso este post pati ❤❤ respect ❤❤💜💜💜
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